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Câncer de mama: mulheres negras enfrentam mais barreiras ao diagnóstico

Principais pontos

  • Revisão científica do Instituto Nacional de Câncer (Inca) reúne 24 estudos de seis países e investiga diferenças raciais na ocorrência do câncer de mama.
  • No Brasil, mulheres brancas apresentam mais casos registrados, mas o menor acesso à mamografia pode contribuir para o subdiagnóstico entre mulheres negras.
  • A falta de informações sobre raça e cor nos registros de câncer dificulta a identificação das desigualdades e a elaboração de políticas públicas para enfrentá-las.
Revisão científica do Inca revela desigualdades raciais no câncer de mama, com diferenças no acesso ao diagnóstico no Brasil.
Revisão científica do Inca revela desigualdades raciais no câncer de mama, com diferenças no acesso ao diagnóstico no Brasil.
Source: Depositphotos
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No Brasil, mulheres brancas apresentam maior incidência registrada de câncer de mama do que mulheres negras. Isso, porém, não significa necessariamente que estas últimas estejam mais protegidas contra a doença. As desigualdades no acesso à mamografia e aos serviços de saúde podem contribuir para que parte dos tumores não seja identificada ou só seja descoberta em estágios avançados.

Essa é uma das questões abordadas na revisão científica “Disparidades raciais na incidência de câncer de mama”, divulgada pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) nesta terça-feira, 27. A publicação reúne 24 estudos realizados em seis países e examina diferenças raciais tanto na ocorrência da doença quanto nos tipos de tumor diagnosticados.

Os resultados mostram que a desigualdade não se resume ao número de casos. O acesso aos exames, o momento do diagnóstico e as características dos tumores também precisam ser considerados para compreender como o câncer de mama afeta diferentes grupos da população.

Mais casos registrados entre mulheres brancas

Entre os 24 estudos selecionados pela revisão, apenas um investigou a incidência do câncer de mama por raça e cor no Brasil. A pesquisa analisou 70.896 novos casos registrados entre 2000 e 2019 em 13 registros de câncer de base populacional.

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A taxa de incidência ajustada por idade foi de 101,3 casos por 100 mil mulheres brancas e de 59,7 por 100 mil mulheres negras. Os números indicam maior incidência registrada entre mulheres brancas nas populações estudadas, mas não permitem concluir que as mulheres negras tenham necessariamente menor risco de desenvolver a doença.

Uma das possíveis explicações para essa diferença está no acesso desigual aos exames. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde apresentados pelo Inca mostram que a cobertura de mamografia foi de 61,8% entre mulheres brancas, 56,5% entre mulheres pretas e 54,4% entre mulheres pardas.

A mamografia permite identificar alterações antes mesmo do aparecimento de sintomas. Quando há menos oportunidades de rastreamento e dificuldades para investigar alterações suspeitas, o diagnóstico pode ser adiado. Parte dos casos também pode deixar de entrar nas estatísticas.

Por isso, os pesquisadores alertam que a incidência registrada deve ser interpretada considerando as condições de acesso aos serviços de saúde.

Diagnóstico tardio também revela desigualdades

As diferenças aparecem ainda no estágio em que a doença é descoberta. Uma pesquisa realizada em Campinas, no interior de São Paulo, e citada na publicação encontrou diagnósticos em estágios avançados, III e IV, em 43,1% das mulheres negras e 35,5% das brancas.

No mesmo grupo estudado, a sobrevida média foi de 7,5 anos entre mulheres negras e 8,4 anos entre brancas.

Embora esses resultados não possam ser generalizados para todo o país, eles mostram a importância de investigar as desigualdades no acesso ao diagnóstico e ao tratamento.

A revisão discute o papel das condições socioeconômicas, das barreiras de acesso aos serviços de saúde e do racismo estrutural e institucional. Essas condições podem dificultar tanto a realização de exames quanto o encaminhamento para investigação e tratamento.

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Tumores mais agressivos aparecem em estudos internacionais

Além das desigualdades no diagnóstico, a revisão identificou diferenças nos tipos de câncer de mama entre grupos raciais.

Nos Estados Unidos, oito estudos encontraram maior incidência de câncer de mama triplo-negativo entre mulheres negras do que entre brancas. Em cinco deles, a taxa foi aproximadamente duas vezes maior.

O triplo-negativo é um subtipo que costuma crescer mais rapidamente e apresenta menos opções de tratamentos direcionados. Recebe esse nome porque suas células não apresentam receptores de estrogênio e progesterona nem expressão elevada da proteína HER2, características utilizadas para orientar determinadas terapias.

Esse tipo de tumor representa aproximadamente 10% a 15% dos casos de câncer de mama.

A maior incidência observada entre mulheres negras nos estudos norte-americanos não significa que todos os tumores nesse grupo sejam mais agressivos. Tampouco permite afirmar que a mesma diferença ocorra no Brasil, onde ainda faltam pesquisas nacionais sobre a incidência dos diferentes subtipos da doença.

Brasil ainda tem poucas pesquisas sobre o tema

A escassez de estudos brasileiros é uma das principais lacunas identificadas pela revisão. Embora o país disponha de sistemas de registro de câncer, ainda são limitadas as informações que permitem comparar a incidência da doença e de seus subtipos entre mulheres brancas, pretas e pardas.

A qualidade dos registros também representa um obstáculo. Nos Registros Hospitalares de Câncer, o preenchimento do campo raça/cor passou de 43,3% em 2000 para 67,2% em 2020. Apesar da melhora, a ausência dessa informação em parte dos registros dificulta a identificação das desigualdades.

O Inca ressalta que raça e cor são categorias sociais e não devem ser confundidas com ancestralidade genética. As diferenças observadas na incidência do câncer de mama precisam ser examinadas considerando fatores biológicos, ambientais e sociais, sem atribuir automaticamente à raça as características dos tumores.

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A publicação divulgada agora concentra-se na incidência da doença, isto é, no surgimento de novos casos. Mortalidade e sobrevida serão abordadas em um segundo volume, informou a instituição.

Para os pesquisadores, compreender as desigualdades raciais no câncer de mama exige ampliar a produção de dados, melhorar o acesso aos exames e garantir que alterações suspeitas sejam investigadas e tratadas em tempo oportuno.

A revisão reforça que o número de diagnósticos, isoladamente, não revela toda a dimensão do problema. Também é necessário saber quais mulheres conseguem descobrir a doença precocemente, quais tipos de tumor apresentam e em que condições chegam ao tratamento.

Crédito da imagem: Depositphotos

 

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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