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Avanço das mulheres na liderança no Brasil é maior que em outros países
Principais pontos
- Tanto no setor privado como no público, os números mostram que as mulheres estão ganhando posições na alta liderança, mesmo que em ritmo lento.
- Levantamentos apontam que, por regiões, a América do Norte e a África apresentaram recuos.
- Entre os novos desafios para as executivas estão o avanço da tecnologia e a chegada da IA no mundo corporativo

A presença feminina em altos cargos de liderança recuou tanto nas grandes corporações como nas empresas de médio porte de forma global. O Brasil, entretanto, seguiu outra via. O país avançou na representatividade feminina na alta gestão, apresentando percentual superior ao da média global. Esse cenário foi traçado pela pesquisa “Woman in Business 2026”, feita pela consultoria Grant Thornton.
O Brasil mostrou avanço na representatividade feminina na alta gestão, alcançando 37,7% de mulheres em posições seniores em 2026, aumento de 1,1 ponto percentual em relação ao ano anterior. A consultoria global atribui o avanço às alterações previstas na Lei 14.611/2023, que obriga empresas com mais de 100 empregados a divulgar salários e critérios remuneratórios em relatórios de transparência a serem enviados ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Com isso, o país apresenta um dos menores índices de empresas sem mulheres em cargos de liderança. “Vimos bons avanços aqui no Brasil, mas é importante não estagnarmos neste patamar”, diz Élica Martins, Sócia de Auditoria da Grant Thornton Brasil, em material de divulgação.
Crescimento na América do Sul
Por região, a América do Sul segue com o maior percentual de mulheres na alta liderança, alcançando 37,0%, apesar de uma pequena redução de 0,2 ponto percentual em 2026. O Chile se destaca com a aprovação de um projeto de lei que promove a diversidade de gênero em conselhos corporativos.
Ao olhar de forma mais ampla, todas as regiões, exceto a Europa, apresentaram redução no percentual de mulheres na alta liderança em 2026. Na Europa, houve um pequeno aumento de 0,1 ponto percentual, enquanto que a África e a América do Norte registraram quedas superiores a 2,0 pontos percentuais.
A região Ásia-Pacífico continua com o menor percentual geral de líderes mulheres, com 31,8%. Apesar de incluir países de bom desempenho, como Filipinas e Tailândia, também concentra os dois países com os menores índices: Coreia do Sul e Japão. De forma positiva, porém, o Japão registrou um aumento de 3,1 pontos percentuais, superando pela primeira vez o marco de 20%.
Liderança no setor público
Com relação à participação feminina na alta liderança da estrutura administrativa federal do Brasil, a pesquisa ‘Perfil das Lideranças no Governo Federal – Recorte de Gênero” mostra um avanço significativo em quatro anos, saindo de 29%, fevereiro de 2022, para 38% em fevereiro de 2026. No total dos cargos de liderança, a presença de mulheres era de 39% em 2022.
Embora a presença feminina ainda não alcance a paridade plena nesse ambiente de trabalho, a trajetória dos últimos anos revela tendência de crescimento gradual, de acordo com a coordenadora-geral de Informações Gerenciais do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), Mayara Farias.
As conquistas nessa esfera são, em boa medida, relacionadas às ações de afirmação do governo. Um exemplo é o que foi estabelecido no Concurso Público Nacional Unificado (CPNU), no qual deveria haver equiparação no número de mulheres convocadas em relação aos homens. “Políticas de inclusão e equidade vêm produzindo efeitos, ainda que o caminho para igualdade substantiva permaneça em construção", diz Mayara.
Custo pessoal e novos desafios
O avanço feminino em cargos de liderança no país é positivo, mas é preciso notar o custo pessoal para cobrir a diferença competitiva já existente entre homens e mulheres. Há muito tempo que as mulheres em cargos de liderança sofrem mais com a síndrome de burnout. Em 2025, esse sintoma foi identificado em um grupo expressivo de líderes mulheres. Foi o mais alto em muito tempo mostra uma pesquisa da organização Lean In, feita em parceria com a consultoria McKinsey & Company.
A pesquisa "Mulheres no Ambiente de Trabalho 2025" — o maior estudo do gênero, baseado em dados de mais de 120 empresas e 9 mil funcionários — aponta para um momento crucial: o recuo das empresas com o movimento de diversificação de gênero e isso tem levado as mulheres a dobrar seu empenho, o que tem gerado exaustão emocional e profissional. E a inteligência artificial representa uma pressão adicional a esse quadro sintomático.
Os dados mostram que há uma probabilidade 27% maior de homens receberem elogios por seus esforços ao utilizar IA. Já as mulheres receiam ser vistas como trapaceiras ao usarem ferramentas de IA. Em 32% das mulheres entrevistadas, essa é a preocupação.
Inteligência artificial
O estudo não traz recorte sobre o mercado de trabalho brasileiro, mas o que se percebe é que o uso de IA tem se difundido de forma mais positiva entre as profissionais e que a adoção da tecnologia está otimizando de forma consistente o fluxo de trabalho. E não é apenas na carreira, as mulheres estão dinamizando a vida pessoal com os agentes de IA. Só que o equilíbrio entre o uso dessas ferramentas e os demais aspectos pessoais estão em fase de amadurecimento para se alcançar um equilíbrio.
"Estou exercitando a disciplina pessoal para conseguir usar o tempo livre para atividades que não sejam relacionadas ao trabalho. Mas, é complicado porque a IA otimiza os processos e propicia ganho de tempo, só que eu acabo inserindo mais tarefas e isso gera novas ansiedades", diz Tati Oliva, sócia-fundadora da Cross Networking, consultoria de parcerias estratégicas.
Apesar de precisar estar equilirando pratos, a executiva defende o uso da tecnologia. "Uso a IA para gerar informação, não para gerar confiança. Nada substitui as relações e as experiências presenciais. É a partir disso que geramos dados. Eu pego esses dados e jogo na IA, que mostra caminhos para melhorar o negócio, mas a direção e a visão estratégica é do gestor", afirma. Tati Oliva.
A dificuldade de equilibrar o benefício que a tecnologia propicia com os demais aspectos da vida acaba abrindo novos desafios para as profissionais. Quanto mais informação se consegue alcançar, mais tempo sobra. Só que esse tempo acaba sendo usado para adicionar mais trabalho. “Aí vem a exaustão mental. Eu tenho que me esforçar para usar esse tempo para o meu descanso. Num mundo com excesso de informação, multitelas e ainda por cima uma Copa do Mundo no meio do caminho, a gente não vai dar conta de tudo. Não tem versão otimizada de agenda que resolva isso”, diz Lisiane Lemos, executiva de tecnologia, cofundadora do Instituto Conselheira 101, mentora no Black Founders Fund do Google e professora no MBA de Tecnologia para Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Para a gerente médica do grupo de Atenção Primária e Doenças Raras da farmacêutica Daiichi Sankyo Brasil, Renata Gebara, a IA ajuda mais do que atrapalha. “A inteligência artificial propicia acessar estudos científicos relevantes que são necessários para as minhas pesquisas. A busca é muito mais eficiente, tanto de qualidade dos dados como no design que eles são apresentados. Isso se traduz em mais tempo livre porque eu consigo terminar minhas pesquisas mais rápido e dedicar mais tempo para as crianças e casa. Com relação ao tempo para desenvolvimento pessoal, bom, esse ainda preciso buscar mais tempo”, diz.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.