As viagens de avião batem recordes e desafiam o controle das emissões de carbono
Principais pontos
- Em um único dia de julho registrou-se mais de 153 000 voos, um fenômeno que deve ser cada vez mais comum, impulsionado por passagens mais acessíveis e pelo crescimento do turismo
- Descarbonizar a aviação continua sendo um grande desafio global, já que os aviões dependem de combustíveis líquidos e alternativas tecnológicas ainda não conseguem acompanhar o crescimento do tráfego.
- Restrições mais duras enfrentam obstáculos econômicos e sociais, devido ao peso da aviação na economia, nos empregos e na mobilidade, tornando mais provável um aumento gradual de taxas e preços.

O tráfego aéreo mundial voltou a bater recordes durante o verão no hemifério norte, aprofundando a tensão entre o crescimento da aviação e as metas de redução de emissões adotadas principalmente pela Europa. Em 23 de julho, foram registrados cerca de 153 mil voos em um único dia, segundo dados citados pelo site francês Atlantico. Para o economista dos transportes Yves Crozet, o avanço do setor mostra como será difícil reduzir de forma significativa as emissões da aviação sem afetar hábitos de consumo, a economia e a própria mobilidade internacional.
Crozet lembra que o transporte aéreo ficou inicialmente fora das metas do Protocolo de Kyoto justamente por causa da dificuldade de descarbonizar o setor. Apesar dos avanços tecnológicos e do aumento da eficiência das aeronaves, os aviões comerciais ainda dependem essencialmente de combustíveis líquidos. Como o crescimento do número de voos supera a redução do consumo por passageiro ou por aeronave, as emissões continuam sendo um desafio.
A aviação representa uma parcela relativamente pequena das emissões globais, estimada por Crozet em cerca de 3% do total. Por isso, os governos concentraram durante muito tempo esforços maiores sobre automóveis e caminhões, enquanto apostavam em soluções tecnológicas futuras para o transporte aéreo, como combustíveis alternativos e hidrogênio.
O problema, segundo o economista, é que o avião passou a ocupar uma posição central no modo de vida contemporâneo. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o aumento da renda e da mobilidade transformou as viagens em uma parte cada vez mais importante da vida cotidiana. As companhias de baixo custo aceleraram esse processo ao reduzir drasticamente os preços.
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Baixo custo e rapidez
Crozet cita como exemplo o custo por quilômetro. Segundo seus cálculos, uma viagem em uma companhia aérea low-cost pode custar entre 5 e 6 centavos de euro por quilômetro, contra cerca de 20 centavos em um automóvel e de 10 a 12 centavos em um trem de alta velocidade. Além disso, o avião oferece uma vantagem difícil de compensar em trajetos mais longos: a velocidade.
Essa combinação de baixo preço e rapidez ajuda a explicar por que medidas de tributação podem ter efeito limitado sobre a demanda. Uma taxa de carbono de 100 euros por tonelada, por exemplo, elevaria em cerca de 20% o preço das passagens mais baratas. Para Crozet, seria necessário um custo significativamente maior, possivelmente entre 200 e 300 euros por tonelada, para provocar uma redução mais significativa no número de viagens.
A União Europeia pretende ampliar o custo ambiental imposto às companhias aéreas nos próximos anos. A partir de 2029, segundo Crozet, empresas terão de adquirir cotas de carbono para determinados voos de menos de 5 mil quilômetros com partida do bloco. Ainda assim, o economista avalia que o impacto nos preços deverá ser limitado, além de não atingir, num primeiro momento, grande parte dos voos intercontinentais.
A cautela dos governos também está relacionada ao peso econômico da aviação. Na França, por exemplo, o setor envolve companhias aéreas, aeroportos e uma indústria aeronáutica liderada pela Airbus. Reduzir de forma drástica o número de voos significaria atingir empregos, arrecadação de impostos e atividades econômicas associadas ao turismo e à mobilidade.
Limitação de demanda
Para Crozet, existe uma contradição entre as metas ambientais e a expectativa de que a tecnologia seja capaz de resolver o problema sem mudanças significativas no comportamento da população. Uma redução profunda das emissões da aviação, segundo ele, provavelmente exigiria alguma forma de limitação da demanda, e não apenas a substituição dos combustíveis atuais por alternativas menos poluentes.
A situação se torna ainda mais complexa porque a maior parte da expansão do tráfego aéreo mundial ocorre fora da Europa, principalmente na Ásia e nos países do Golfo. Isso reduz o impacto global de políticas adotadas apenas pela União Europeia e aumenta as preocupações do bloco com a competitividade de suas empresas.
Crozet também relaciona o crescimento da aviação à expansão do turismo de massa. À medida que a renda aumenta, a população tende a gastar proporcionalmente mais com lazer, cultura e viagens. A popularização das passagens aéreas tornou destinos antes restritos a grupos de maior renda acessíveis a milhões de pessoas, mas também provocou problemas de saturação em cidades e atrações turísticas.
Barcelona, Veneza, Praga e outros destinos europeus já adotaram ou discutem restrições para controlar o excesso de visitantes. Medidas semelhantes aparecem em áreas naturais, como o Mont Blanc e as Calanques de Marselha. Crozet, porém, argumenta que essas iniciativas têm alcance limitado. Se um destino restringe a chegada de turistas, operadores e viajantes podem simplesmente escolher outros lugares.
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Necessidade de controle
A tendência, portanto, é de aumento das restrições à medida que o turismo se torna mais acessível. Para o economista, isso reproduz um fenômeno já observado no transporte rodoviário: quanto mais pessoas passam a utilizar determinada infraestrutura, maior é a necessidade de regras, limites e controles.
Mesmo assim, Crozet considera improvável que governos europeus adotem medidas capazes de tornar o transporte aéreo inacessível para grande parte da população. Além de responder por uma parcela limitada das emissões globais, o setor tem importância estratégica para a economia europeia e representa uma das áreas industriais em que o continente continua altamente competitivo.
Uma alternativa mais provável seria reduzir gradualmente a quantidade de permissões de emissão disponíveis ao longo da próxima década, pressionando os preços das passagens para cima. Tentativas mais duras, no entanto, já enfrentaram resistência. No aeroporto de Schiphol, em Amsterdã, uma iniciativa para limitar o número de voos foi contestada judicialmente.
O debate expõe uma questão mais ampla sobre a relação entre crescimento econômico, consumo e política climática. A expansão da renda aumenta a demanda por viagens, ao mesmo tempo em que governos tentam reduzir as emissões associadas a esse crescimento. Para Crozet, limitar a aviação de maneira realmente significativa exigiria enfrentar não apenas um problema tecnológico, mas também escolhas econômicas e sociais difíceis sobre mobilidade, turismo, emprego e padrão de vida.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.
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