Após 52 dias de bloqueios: entenda a crise econômica que atinge os trabalhadores da Bolívia
Principais pontos
- Após 52 dias de bloqueios liderados pela COB (Central Obrera Boliviana), milhares de trabalhadores bolivianos enfrentam perdas econômicas graves e incerteza com a interrupção da mobilidade e do comércio.
- O turismo foi o setor mais afetado: ocupação hoteleira caiu para 4% em La Paz, com cancelamentos de até 95% e perdas nacionais de cerca de R$ 1,5 bilhão.
- Prejuízo total à economia pode chegar a US$ 3 bilhões (5,5% do PIB). Empresários pedem apoio emergencial do governo e lei contra novos bloqueios.

Após quase dois meses de bloqueios, milhares de trabalhadores em toda a Bolívia enfrentam perdas econômicas cada vez maiores e uma incerteza crescente, com suas atividades diárias e fontes de renda seriamente interrompidas.
Os protestos, que duraram 52 dias, foram liderados pela Central Obrera Boliviana (COB) e pela Federação de Camponeses de La Paz. Os manifestantes exigiam a renúncia do presidente Rodrigo Paz, sob a acusação de que ele não atendeu às suas demandas desde que assumiu o cargo, há quase oito meses. Os prolongados bloqueios nas estradas restringiram severamente a mobilidade e as cadeias de suprimentos, desacelerando a atividade econômica em todo o país, especialmente nos centros urbanos como La Paz.
No setor de turismo, o impacto foi imediato e duro. Edson Muraña, líder indígena e guia de turismo da comunidade de Lipez, em Potosí – lar do famoso Salar de Uyuni –, contou que “os turistas pararam de vir” já na primeira semana. Os cancelamentos em massa interromperam planos de viagem e operações das agências, gerando um efeito cascata em todo o setor, principalmente para quem depende diretamente do fluxo de visitantes.
Em La Paz, o setor de turismo e hotelaria reflete a gravidade da crise. Segundo Helga Cisneros, presidente da Câmara Departamental de Hotéis, as taxas de ocupação despencaram. O setor já havia caído de cerca de 70% em 2019 para aproximadamente 35% a 38% nos últimos anos, mas a situação piorou drasticamente durante os bloqueios. No início de junho, a ocupação dos hotéis chegou a apenas 4%, recuperando-se levemente para 7% nas semanas seguintes – um quadro que revela a quase paralisia do turismo na cidade.
As perdas econômicas foram substanciais. Cisneros informou que, em nível nacional, o setor acumula prejuízos estimados em cerca de 2,7 bilhões de bolivianos, o equivalente a aproximadamente 270 milhões de dólares na cotação oficial atual. Embora o número seja nacional, La Paz – um dos principais destinos turísticos do país – responde por uma parcela significativa desses prejuízos, devido aos altos índices de cancelamento e à forte queda no número de visitantes.
“Junho registrou cancelamentos de cerca de 95%”, destacou Cisneros, acrescentando que maio já havia sido marcado por interrupções generalizadas. Essa queda acentuada na demanda deixou muitos estabelecimentos sem receita justamente em um período que costuma ser importante para a recuperação.
A situação do emprego também se fragilizou. O setor de hotelaria, que emprega grande número de mulheres e jovens, precisou colocar muitos trabalhadores em licença por falta de movimento. Com custos operacionais altos – salários, contas de luz, água e impostos –, várias empresas já estudam demissões para conseguir se manter.
Paralelamente, trabalhadores informais dos mercados locais relatam instabilidade diária. Vendedores falam de dificuldades no abastecimento e de preços que oscilam bastante, com a disponibilidade de mercadorias variando de um dia para o outro. Mesmo assim, a maioria diz que a prioridade é continuar trabalhando, já que seu sustento depende da renda diária.
Em âmbito nacional, os setores empresariais estimam que os danos à economia possam chegar a 3 bilhões de dólares, o equivalente a cerca de 5,5% do PIB do país. A Confederação de Empresários Privados da Bolívia cobrou do governo a implementação de um plano de apoio emergencial para as empresas em dificuldade, além da aprovação de uma lei que previna novos bloqueios nas estradas.
Embora os bloqueios tenham sido gradualmente suspensos, o governo decretou estado de emergência e ordenou que forças militares e policiais desobstruíssem as vias. Após quase dois meses de interrupções, a Bolívia enfrenta agora o desafio de estabilizar sua economia, enquanto trabalhadores de diversos setores seguem cobrando condições para retomar suas atividades e recuperar o sustento.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.