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Acesso a crédito gera recorde de mulheres empreendedoras no Brasil

Principais pontos

  • Impulsionadas pelo desejo de independência e por novas linhas de financiamento, 10,3 milhões de empreendedoras lideram pequenos negócios em setores essenciais como comércio e serviços.
  • Programas públicos de microcrédito e capacitação injetaram bilhões na economia, permitindo que as mulheres superassem a informalidade, inclusive no meio rural.
  • Apesar do crescimento, as brasileiras ainda enfrentam barreiras econômicas severas, incluindo taxas de juros mais altas que as dos homens (40,6% contra 36,8% ao ano) e altos índices de inadimplência.
Zenilda Aleixo, beneficiada por programa de acesso a crédito no Rio Grande do Norte
Zenilda Aleixo, beneficiada por programa de acesso a crédito no Rio Grande do Norte
Source: Reprodução / Ministério do Desenvolvimento Social
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O papel das mulheres no empreendedorismo brasileiro é preponderante. Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua) Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o país atingiu o marco histórico de 10,3 milhões de proprietárias de empresas, o equivalente a um terço do total. Embora os homens ainda sejam maioria, as brasileiras lideram em setores essenciais para a economia nacional, como serviços (53% a 36%) e comércio (27% a 20%). 

Além da alteração na dinâmica dos lares e na própria configuração social brasileira — onde, historicamente, a mulher é tida como cuidadora do lar e dos filhos e os homens são os provedores —, a lógica do avanço é explicada pelos números de financiamento e distribuição de crédito no país. O acesso a esses recursos impulsiona a superação de um cenário histórico de escassez de oportunidades no mercado de trabalho.

Em instituições públicas, como o Banco do Brasil (BB), destacam-se fundos de financiamento como o Mulheres no Topo, plataforma lançada em 2023 para integrar crédito e capacitação para empreendedoras. Desde então, o BB passou a atender mais de 1,3 milhão de empresas de mulheres, com a liberação de mais de R$ 102 bilhões em recursos por meio de diferentes linhas de crédito.

Loja com ar-condicionado

Destinado a pessoas inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) do Governo Federal, o Programa Acredita no Primeiro Passo garantiu acesso a crédito com juros reduzidos a 176,16 mil empreendedoras — as mulheres representam 70% do público atendido pela iniciativa. 

O impacto social é visível. Em Parnamirim, cidade do estado do Rio Grande do Norte, a autônoma Zenilda Aleix é dona de uma loja onde comercializa de roupas e cosméticos. Com os recursos do programa, instalou sua loja em um imóvel ao lado de sua casa. “Consegui investir e ampliar a loja, instalar ar-condicionado para deixar mais confortável para os clientes, porque aqui o clima é muito quente", explica Zenilda. "A autonomia financeira permite que a gente sonhe e planeje. Quero continuar crescendo", diz ela. Ao todo, R$ 2,27 bilhões foram distribuídos até o início de 2026.

Financiamento rural

No Nordeste, onde os índices de mulheres que vivem abaixo da linha da pobreza são de cerca de 24% — acima da média nacional —, o Agroamigo, programa de microcrédito do Banco do Nordeste destinado a agricultores, chegou a 403 mil contratos assinados por empreendedoras em 2025 — número que as fez superar os homens no acesso à modalidade.

Para o superintendente de Agronegócio e Microfinança Rural do Banco do Nordeste, Luiz Sérgio Farias Machado, os números refletem uma alteração nos padrões de gênero da economia rural. “A ampliação do crédito para mulheres está diretamente relacionada ao fortalecimento de iniciativas não agropecuárias, como artesanato, turismo rural e pequenos empreendimentos conduzidos por mulheres, que diversificam a renda e impulsionam o empreendedorismo feminino no campo”, disse.

O diagnóstico e os resultados do programa são indicativos fiéis da realidade do país. Conforme dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), as mulheres representam mais de 67% dos tomadores de crédito do Programa Nacional do Microcrédito Produtivo Orientado (PNMPO) — mais de três milhões de brasileiras foram atendidas pela iniciativa.

Juros mais altos

Apesar da perspectiva de mudança, as mulheres ainda sofrem com a aplicação de taxas de juros mais elevadas do que os homens em financiamentos voltados a pequenos negócios. Em 2024, o estudo “O financiamento do empreendedorismo feminino no Brasil: um panorama do mercado de crédito”, realizado pelo Sebrae com dados do Banco Central, revelou que os financiamentos para homens proprietários de pequenos negócios foram tributados em 36,8% ao ano, em média, enquanto o público feminino conviveu com taxas de 40,6%.

Com mais de 83,5 milhões de inadimplentes no Brasil em maio de 2026, segundo a Serasa Experian, empresa de avaliação de crédito, as cobranças mais elevadas obstruem os caminhos para as mulheres — que representam 50,5% dos detentores de dívidas no país —, mas não parecem frear um movimento de desenvolvimento econômico independente e sustentado pelo empreendedorismo.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.