8 estrelas da Copa que apoiaram publicamente direitos LGBTQIAP+ – e por que isso ainda é tabu

Principais pontos

  • Apoio LGBTQIAP+ no futebol é raro mesmo entre aliados heterossexuais: dos 1.248 jogadores da Copa do Mundo de 2026, nenhum é abertamente gay ou bissexual
  • A Fifa veta gestos simbólicos em jogos oficiais e já proibiu ação na Copa de 2022
  • Tabu tem raiz econômica e cultural, segundo quem viveu o problema
Jackson Irvine durante jogo pela seleção da Austrália
Jackson Irvine durante jogo pela seleção da Austrália
Source: Reprodução/ @jacksonirvine_

A Copa do Mundo de 2026 é a maior da história: 1.248 jogadores inscritos. Nenhum deles é abertamente gay ou bissexual.

Em quase 100 anos de torneio, apenas dois atletas tornaram pública a homossexualidade – ambos só depois de pendurar as chuteiras. O primeiro foi o francês Olivier Rouyer, companheiro de Michel Platini na seleção da França de 1978. O segundo foi o alemão Thomas Hitzlsperger, que disputou o Mundial de 2006 e revelou a orientação sexual só após a aposentadoria.

Nesta Copa, encontramos 8 jogadores com declarações públicas sobre o tema.O que cada um deles disse? 

Manuel Neuer (Alemanha) Capitão alemão no Catar-2022 e um dos líderes da seleção nesta copa, o goleiro tentou usar a braçadeira arco-íris do movimento One Love sob a manga, driblando a proibição da Fifa. A seleção alemã divulgou nota: "Queríamos usar nossa braçadeira de capitão para nos posicionar sobre os valores que defendemos na seleção da Alemanha: diversidade e respeito mútuo."

Antes disso, na Eurocopa de 2020, o goleiro já usava uma braçadeira arco-íris inspirada na campanha Rainbow Laces da Stonewall, gesto que a Uefa chegou a investigar e depois validou como símbolo de diversidade, não político.

Leon Goretzka (Alemanha)

O meio-campista é descrito como um dos jogadores mais vocais do futebol europeu na pauta LGBTQIAP+. Em 2021, fez coração com as mãos para a torcida da Hungria após marcar contra o adversário, em protesto à lei anti-LGBT do país, e publicou nas redes a mensagem "spread love" (espalhe amor). 

Em 2022, rebateu o embaixador do Mundial do Catar, Khalid Salman, que chamara a homossexualidade de dano mental. "É muito opressivo. Essa é uma imagem de homem que vem de outro milênio. Deixa a gente sem acreditar que algo assim possa ser dito por um embaixador da Copa do Mundo pouco antes do torneio."

Harry Kane (Inglaterra)

O craque da seleção inglesa fazia parte do grupo de seleções europeias que prometeu usar a braçadeira One Love. Diante da ameaça de cartão amarelo pela Fifa, a Inglaterra recuou junto aos demais.

Bruno Fernandes e Marcus Rashford (Portugal e Inglaterra)À época, colegas de Manchester United participaram da campanha "Love United", lançada pelo clube em apoio à comunidade LGBTQIAP+. A campanha reuniu jogadores e funcionários do United para afirmar que o futebol é para todos e que ninguém deve ser excluído do esporte. 

Patrick Berg (Noruega)

Em maio de 2024, durante partida do Bodø/Glimt contra o Kristiansund, Berg confrontou um torcedor que gritava xingamentos homofóbicos contra o time. O torcedor foi banido do estádio. Em entrevista a uma TV norueguesa, Berg disse: "Vejo como positivo quando algo que acontece numa arena de futebol pode contribuir para que nós, como sociedade, fiquemos melhores em nos apoiar e ajudar uns aos outros. A gente sempre pode se posicionar quando as coisas saem dos limites do que se pensa ser aceitável numa sociedade."

Borja Iglesias (Espanha) É o caso mais robusto da lista. O atleta pinta as unhas em jogos como símbolo de inclusão desde 2023 e protagonizou uma campanha irônica com a frase "Sou Borja Iglesias e sou heterossexual", questionando por que ninguém estranha alguém declarar a heterossexualidade, mas a homossexualidade ainda ser tabu no futebol. 

Em janeiro de 2026, voltou a ser alvo de insultos homofóbicos em jogo contra o Sevilla. O Celta de Vigo, clube onde joga, organizou um ato de torcedores com unhas pintadas em solidariedade. Em março de 2026, ao jornal L'Équipe, disse que o entristece, no século 21, ainda ser tão difícil para jogadores homossexuais declarar a orientação publicamente.

Jackson Irvine (Austrália)

Talvez a declaração mais longa e pessoal da lista, feita via FIFPRO antes do Catar-2022: "Tenho família e amigos que fazem parte da comunidade LGBTQIAP+, um grupo de pessoas que, por muito tempo, foi imensamente marginalizado e discriminado. Quero falar por eles. Sejamos claros: a homofobia no futebol ainda é um problema." Ele também integra a PFA Australia, que organiza a Pride Cup no país.

Por que isso é tabu

A explicação não vem de torcedor nem de comentarista, mas de quem viveu o problema por dentro.

"É matematicamente impossível que não existam jogadores homossexuais em todos os principais campeonatos do mundo. Eles existem, e são muitos", diz Eric Najib, jogador e técnico do Stonewall FC, clube londrino fundado por gays que sofriam preconceito em outros times.

Josh Cavallo, australiano que em 2021 se tornou o primeiro jogador profissional ativo abertamente gay do futebol masculino, descreve o ambiente como hostil e diz receber múltiplas ameaças de morte por dia.

Cavallo compara a lógica do tabu à pressão por desempenho em campo: "No mundo normal do futebol, se você erra um chute a gol ou faz algo errado em campo, a torcida grita com você. Eu acho que é parecido em termos de sexualidade. As pessoas não querem ser o alvo, e é por isso que elas não querem se assumir."

O recorte histórico ajuda a entender o silêncio. Justin Fashanu foi o primeiro jogador profissional a se assumir gay ainda em atividade, em 1990; suicidou-se oito anos depois. Passaram-se mais de 30 anos até outro jogador profissional britânico repetir o gesto: o jovem Jake Daniels, do Blackpool, em 2022, citando o próprio Cavallo como inspiração.

Para Aslie Pitter, fundador do Stonewall FC, a explicação é econômica antes de cultural: "O futebol é uma carreira curta, e jogadores temem perder patrocínios e contratos."O contraste com o futebol feminino, onde a presença de atletas e treinadoras assumidamente LGBTQIP+ é comum, reforça que o problema não é o esporte em si, mas a cultura hipermasculina do futebol masculino de elite.

Há também a camada institucional: mesmo o gesto simbólico de uma braçadeira foi vetado pela Fifa no Catar-2022 sob ameaça de sanção.

O padrão se repete em 2026, com o "Jogo do Orgulho" em Seattle gerando protesto das federações do Irã e do Egito, países onde a homossexualidade é crime.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.